Guia para a dor nas articulações

Articulações: Estrutura e Função

As articulações são estruturas complexas onde os ossos se encontram, permitindo movimento e fornecendo apoio mecânico. São compostas por elementos como a cartilagem (tecido liso e amortecedor), o líquido sinovial (que lubrifica a articulação), ligamentos (que unem ossos a ossos) e tendões (que ligam músculos aos ossos). Articulações principais — como ombros, ancas, cotovelos e joelhos — facilitam movimentos diários, desde caminhar até levantar objectos. O desenho de cada articulação determina a sua amplitude de movimento: por exemplo, as articulações de encaixe esférico (como as ancas) permitem rotação, enquanto as articulações de dobradiça (como os joelhos) possibilitam flexão e extensão.

Compreender a Dor Articular

A dor articular, ou artralgia , refere-se a desconforto, rigidez ou inflamação numa ou mais articulações. Embora frequentemente leve e tratável em casa, pode ser sinal de condições subjacentes que exigem atenção médica. A dor pode originar-se de lesões, uso excessivo ou doenças sistémicas. Por exemplo, uma dor aguda pode surgir após uma entorse, enquanto a dor crónica muitas vezes aponta para problemas degenerativos ou doenças autoimunes.

Causas Principais da Dor Articular

Artrite

A principal causa de dor articular, a artrite engloba mais de 100 condições. Os dois tipos mais comuns são:

Osteoartrite (OA): Resulta da degradação da cartilagem, afetando articulações de carga (ex.: joelhos, ancas). Está ligada ao envelhecimento, obesidade ou lesões. Segundo a Sociedade Portuguesa de Reumatologia , a OA é mais frequente após os 40 anos, especialmente em mulheres.
Artrite Reumatoide (AR): Doença autoimune em que o sistema imunitário ataca as membranas articulares, causando inchaço e deformações. A Associação Portuguesa de Doentes com Artrite Reumatoide estima que afete cerca de 20.000 pessoas em Portugal, sobretudo mulheres.

Condições Inflamatórias e Autoimunes

  • Bursite: Inflamação das bursas (sacos com líquido que amortecem as articulações), comum em ombros ou cotovelos.
  • Gota: Acúmulo de cristais de ácido úrico nas articulações, frequentemente no dedo grande do pé. A Sociedade Portuguesa de Reumatologia destaca o consumo excessivo de álcool e alimentos ricos em purinas (ex.: mariscos) como fatores de risco.
  • Lúpus: Doença sistémica que pode inflamar articulações. A Associação Portuguesa de Doentes com Lúpus sublinha o seu impacto em múltiplos órgãos.

Infeções e Traumatismos

  • Artrite Séptica: Infeções bacterianas ou virais (ex.: hepatite, doença de Lyme) que invadem articulações, exigindo tratamento urgente.
  • Lesões: Entorses, fraturas ou luxações danificam estruturas articulares diretamente.

Doenças Metabólicas e Sistémicas

  • Osteoporose: Ossos frágeis e porosos aumentam o risco de fraturas, sobrecarregando articulações adjacentes.
  • Fibromialgia: Dor musculoesquelética generalizada, incluindo nas articulações, associada a hipersensibilidade à dor.

Causas Menos Comuns

  • Sarcoidose: Granulomas inflamatórios podem afetar articulações.
  • Raquitismo: Deficiência de vitamina D amolece os ossos, alterando a mecânica articular.

Sintomas da Dor Articular

A dor articular manifesta-se de formas variadas, dependendo da causa subjacente. Sintomas comuns incluem:

  • Desconforto localizado: Dor surda, rigidez ou pontadas durante o movimento ou repouso.
  • Inflamação: Inchaço, vermelhidão, calor ou sensibilidade à volta da articulação (sinais típicos de artrite ou bursite).
  • Redução da mobilidade: Dificuldade em movimentar a articulação totalmente, devido a danos estruturais ou inflamação.
  • Sintomas sistémicos: Febre, fadiga ou perda de peso inexplicada, que podem indicar doenças autoimunes (ex.: lúpus) ou infeções.

Quando Consultar um Médico

Procure avaliação médica se experienciar:

  • Dor persistente: Dor que dura mais de três dias sem melhorias.
  • Sintomas inexplicados: Febre sem sintomas gripais (pode indicar artrite séptica ou doenças autoimunes).
  • Alterações visíveis: Inchaço, vermelhidão ou calor na articulação (sinais de inflamação ou infeção).

Situações de Emergência

Dirija-se ao Serviço de Urgência imediatamente se:

  • Traumatismo grave: Queda ou impacto que cause dor intensa ou deformação (ex.: fraturas ou luxações).
  • Inchaço repentino ou incapacidade de movimentar: Pode indicar síndrome compartimental ou rotura de ligamentos.
  • Deformação visível: Desalinhamento articular, frequente em lesões agudas ou artrite avançada.

Diagnóstico da Dor Articular

Um processo estruturado ajuda a identificar a causa:

Avaliação clínica:

  • Exame físico: Avaliação da amplitude de movimento, inchaço e sensibilidade.
  • História clínica: Duração da dor, fatores desencadeantes e sintomas associados (ex.: rigidez matinal na artrite reumatoide).

Exames de imagem:

  • Radiografias: Detetam fraturas, osteoartrite ou degeneração articular.
  • Ressonância magnética/Tomografias: Revelam danos em tecidos moles (ex.: ligamentos rompidos) ou alterações inflamatórias precoces.

Exames laboratoriais:

  • Análises sanguíneas: Testes como fator reumatoide (AR), anti-CCP (específico para AR) ou anticorpos antinucleares (lúpus) para detetar doenças autoimunes.
  • Marcadores inflamatórios: Proteína C reativa (PCR) ou taxa de sedimentação eritrocitária (TSE) elevadas indicam inflamação sistémica.

Análise do líquido articular:

  • Punção articular: Retirada de líquido sinovial para diagnosticar infeções (ex.: artrite séptica) ou gota (cristais de urato).

Gestão Doméstica e de Estilo de Vida

Alívio Farmacológico

  • Analgésicos tópicos: Cremes ou géis com capsaicina (derivada da pimenta) ou AINEs (ex.: gel de diclofenac) bloqueiam os sinais de dor. A Sociedade Portuguesa de Reumatologia destaca a sua eficácia em casos ligeiros a moderados de osteoartrite.
  • AINEs orais: Medicamentos como ibuprofeno ou naproxeno combatem inflamação e dor. Contudo, o uso prolongado pode aumentar riscos gastrointestinais ou cardiovasculares, alerta a Direção-Geral da Saúde .

Atividade Física

  • Exercício de baixo impacto: Natação, ciclismo ou caminhadas fortalecem músculos ao redor das articulações. A Direção-Geral da Saúde recomenda 150 minutos semanais de atividade moderada para saúde articular.
  • Alongamentos: Yoga ou tai chi melhoram flexibilidade e amplitude de movimento. Um estudo de 2021 no Journal of Rheumatology revelou que o yoga reduz 30% da dor na artrite reumatoide.

Controlo de Peso
O excesso de peso sobrecarrega articulações, especialmente joelhos e ancas. Perder 10% do peso corporal pode reduzir a dor da osteoartrite pela metade, segundo a Associação Portuguesa de Doentes com Artrite .

Terapia Térmica

  • Calor: Banhos quentes ou almofadas térmicas relaxam articulações rígidas.
  • Frio: Bolsas de gelo diminuem inflamação aguda. A Ordem dos Médicos fornece orientações para aplicação segura.

Repouso e Postura
Evitar sobrecarregar articulações dolorosas. Ajustes ergonómicos (ex.: cadeiras de apoio lombar) minimizam tensões diárias.

Intervenções Médicas

Procedimentos Diagnósticos e Terapêuticos

  • Punção articular: Retirada de líquido para diagnosticar infeção, gota ou pseudogota. Alivia também a pressão articular.
  • Injeções de corticosteroides: Aplicação direta de anti-inflamatórios. Úteis em crises de OA ou AR, mas limitadas a 3–4 por ano para evitar danos na cartilagem.

Terapias Modificadoras da Doença

  • Gestão da AR: Fármacos como metotrexato ou inibidores de TNF (ex.: adalimumab) induzem remissão. A Sociedade Portuguesa de Reumatologia recomenda início precoce (<3 meses após diagnóstico).
  • Terapias emergentes: Inibidores de JAK (ex.: tofacitinib) e células estaminais estão sob investigação para casos resistentes, como mostra o Instituto de Medicina Molecular em Lisboa.

Opções Cirúrgicas

  • Próteses articulares: Comuns em OA grave de ancas ou joelhos. As modernas duram 15–20 anos, segundo a Associação Portuguesa de Ortopedia .
  • Artroscopia: Cirurgia minimamente invasiva para reparar cartilagens ou ligamentos.

Fisioterapia
Exercícios personalizados melhoram força e estabilidade. Uma revisão de 2020 no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy concluiu que reduz 40% da dor em OA do joelho.

Casos Especiais e Terapias Complementares

Gota:
Controlada com alopurinol (para reduzir o ácido úrico) e alterações dietéticas (evitar carne vermelha, álcool). A Sociedade Portuguesa de Reumatologia disponibiliza recursos para doentes.

Fibromialgia:
Combina antidepressivos (ex.: duloxetina), terapia cognitivo-comportamental e exercício aeróbico.

Abordagens complementares:
Acupuntura e suplementos de glucosamina/condroitina têm evidências variadas, mas podem beneficiar alguns indivíduos. O Instituto de Medicina Tradicional e Alternativa em Portugal analisa estas opções.

Perspectiva para Pessoas com Dor Articular

O prognóstico a longo prazo varia conforme a causa, gravidade e rapidez do tratamento. Muitos casos estão ligados à osteoartrite (OA) , uma condição degenerativa causada pelo “desgaste” da cartilagem ao longo do tempo. A OA progride lentamente e, embora incurável, os sintomas são geralmente controláveis com ajustes no estilo de vida e medicação. Segundo a Sociedade Portuguesa de Reumatologia , milhões de pessoas vivem com OA e, com cuidados adequados, mantêm mobilidade e qualidade de vida.

No entanto, a dor articular também pode indicar condições mais graves, como artrite reumatoide (AR) ou infeções. A AR, uma doença autoimune, requer intervenção precoce para evitar deformações. A Sociedade Portuguesa de Reumatologia sublinha que o uso imediato de fármacos modificadores da doença (DMARDs) induz remissão em 50–70% dos casos de AR, melhorando significativamente o prognóstico.

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